Comédias tristes de subhumanidades que sonham com uma “outra vida”, transpondo fronteiras, geográficas ou linguísticas, “Paris Paris” acompanha três imigrantes que preenchem as vagas dos seus arquétipos (ou estereótipos), comunicam em inglês entre si, estabelecendo-a como língua neutra, mas, fora desses campos e recolhidos às suas intimidades, exercitam os respectivos dialectos, poesias características enquanto afirmação das suas identidades. Vivem no limbo, sem nunca se distanciarem das próprias ambições. Frequentam aulas de francês em Tianducheng [China], com vista para a Torre Eiffel, para Paris, a verdadeira não a “réplica chinesa”, a antiga cidade das luzes, a invocação de um ideal concretizado.
Dirigido por Isabelle Tollenaere (“Victoria”), esta docuficção acompanha, como um slapstick entravado, os subenredos destes “três estarolas” (um chinês, um congolês, um palestiniano). Há, neste emolduramento (o filme tem um formato encaixotado de 4:3), uma procura da dignidade destes migrantes, sem nunca lha conceder verdadeiramente. Enquanto “bonecos” falantes, algo inexpressivos, necessitam do espaço para os seus “gags”, numa busca incessante por referências do cinema indie, do melancolismo kaurismakiano até a um certo rigor estético de Wes Anderson, desprovido das suas excentricidades e obsessões. Outros falarão de Jarmusch, na romantização da sua independência fílmica.
Contudo, para além da sua dimensão poética, nomeadamente através do personagem do poeta palestiniano (Mahmoud Beshtawi), que enriquece a narrativa com as suas estrofes, o filme, na sequência desse estado mudo e mútuo, parece nunca respeitar os protagonistas. Permanecem reféns da própria condição, e o estado comatoso que por vezes evidenciam acaba por lhes retirar humanidade, tal como, em tempos, Nele Wohlatz na sua produção argentina “El Futuro Perfecto” (2016), onde a barreira linguística aliava-se a uma quase barreira emocional.
Talvez sejamos nós, espectadores a quem estes filmes chegam sem resistência, já cansados de assistir a esta descaracterização das personagens migrantes. O resultado não está assim tão distante do que se faz do outro lado da trincheira, apenas sem as mesmas condescendências.
Filme visualizado no âmbito do Festival Internacional de Karlovy Vary

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